Diz a Liga Portuguesa de Futebol profissional na Secção 3, Artigo 45º do Regulamento das Competições (pag. 30) o seguinte: (versão resumida pelo GB)
1. Podem inscrever-se jogadores de qualquer nacionalidade, desde que com contrato senior ou junior
2. Inscrição obrigatória de 8 jogadores que tenham sido inscritos na Federação Portuguesa de Futebol, pelo período correspondente a três épocas desportivas, entre os 15 e os 21 anos de idade (inclusive) - Jogador formado localmente
3. Não podem exceder 27 seniores e ainda 3 jogadores da categoria sénior do 1º ano que tenham sido juniores A pelo mesmo Clube na época anterior. 20 jogadores sub-23 do Clube Satélite e/ou da categoria júnior A.
Acho que não interpretei mal a lei. Assim sendo, só pode ser para rir que vejamos Fernando Gomes, Paulo Bento e outros que tais a queixarem-se da falta de aposta na formação por parte dos clubes portugueses.
Não há qualquer obrigatoriedade de ter jogadores inscritos que sejam formados NO CLUBE - isso fica para as normas da UEFA e habitualmente apenas para "encher" pois se os miúdos não jogam no campeonato, menos ainda jogarão nas provas europeias.
Portugal é, caso os "donos do futebol" não saibam o país pequeno que viu condecorar no Mundo Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo. Que viu aparecer outros nomes como João Vieira Pinto, Vitor Baía, Rui Costa, Paulo Sousa ou Fernando Couto e que agora tem jogadores espalhados por Real Madrid, Chelsea, Manchester United, Atl Madrid, Valencia, Zenit e, claro, Benfica e FCPorto (que estiveram em finais europeias nos últimos anos) e Sporting.
Portugal, em particular o SLBenfica e o SportingCP dispõe das melhores redes de prospecção nacionais e internacionais de jovens jogadores. A taxa de prática desportiva e, especialmente do futebol, é elevadíssima e das mais altas da Europa.
O potencial, portanto, para obter valores na formação de jogadores jovens e PORTUGUESES é enorme.
A dúvida é: Mas porque não acontece?!
São imensos os motivos! Podemos dispersar por onde quisermos: desde as "negociatas de comissões", os interesses dos empresários, a escolha dos caminhos mais fáceis por parte dos dirigentes, a sede de protagonismo, a comunicação social, etc. etc. etc.
Olhamos hoje em dia para jogadores em ascensão na Europa e ouvimo-los dizer que "o campeonato português não é atractivo". E a verdade é que... não é! Tirem os jogos do Benfica, Sporting e Porto à liga nacional e temos estádios vazios, mau futebol, más arbitragens, maus comentadores, muitos interesses e jogadas de bastidores.
E a tendência tem sido para piorar, piorar e piorar... os clubes têm cada vez mais dificuldades financeiras, os jogadores se não jogarem nas equipas de topo, a médio prazo deixarão de viver do futebol e passarão a ter que entrar aos 30, 33, 35 anos no mercado de trabalho depois de anos dedicados ao futebol, sem dinheiro e se valor acrescentado para trazer ao mercado de trabalho. Os presidentes/dirigentes, passam pelos clubes uns mais anos que outros, invariavelmente saem mais ricos ou melhor posicionados na sociedade... depois de terem destruído, na sua grande maioria os clubes que dirigiram.
Como muito bem refere hoje José Marinho na sua página do Facebook, sobre a ascensão de Rodrigo, a grande realidade é que tal acontece quando ao jogador são dadas condições para jogar com regularidade, sem pressão de olhar por cima do ombro para se sentir preterido à primeira falha... e os resultados estão à vista.
Ou seja, quando há qualidade (e se houver maior aposta de todos os clubes, invariavelmente o nível qualitativo irá subir bastante), o grande diferenciador passará pela oportunidade que os miudos terão de ser apostas seguras, de se sentir como tal e não como uma etapa transitória até que descubram um estrangeiro apetecível.
Dito isto, importa sim começar por quem manda!
Se os dirigentes, que são na sua maioria oportunistas sociais, não sabem liderar as suas instituições para as proteger, para lhes dar valor, para lhes acrescentar valor, para lhes dar sustentabilidade... então que sejam os orgãos que lideram o futebol a impor as regras e obrigar esses dirigentes a proteger o futebol.
O que está em causa não é proteger os miúdos... o que está em causa é proteger o futebol português. Não haja quaisquer dúvidas que sem uma inversão estratégica semelhante à que fez a Holanda já na década de 70... os nossos filhos talvez ainda possam continuar a alimentar a paixão pelo futebol, mas seguramente que os nossos netos ou bisnetos já não terão futebol português para terem a paixão que os nossos pais e avós tiveram e nos transmitiram.
O futebol português vai ter que "FECHAR PORTAS", e tal como a economia, procurar limitar ao máximo as "importações" e incentivar a produção nacional, dinamizar a "economia nacional" do futebol e fazê-lo de forma sustentada que nos possibilite alicerçar a sustentabilidade também na VENDA de activos produzidos em Portugal.
O País só começou a inverter a tendência suicída quando também ao nível macro económico apontámos à produção nacional e às exportações. É esse o caminho que o futebol português tem que seguir.
Os clubes, principalmente abaixo dos três grandes, têm que começar a ser formados na sua grande maioria por jogadores portugueses e formados muitos deles nos próprios clubes. Terá custos desportivos? talvez numa fase de transição, mas a médio e longo prazo será o alcance da sustentabilidade.
É preciso, mais do que falar, que a Liga e a FPF tenha coragem de impor regras e limites às equipas nacionais, sem excepções, de incentivo à formação.
Falam tanto nos direitos televisivos e na centralização? Porque não indexar uma pequena parte da quota parte dos clubes ao numero de jogadores formados no clube, tal como se pretende fazer com a indexação à classificação do ano anterior?
Porque não penalizar os clubes com baixos rácios de jogadores formados no clube? Porque não obrigar à inscrição de uma quota mínima de jogadores formados no clube? Porque não impor regras na Liga que obrigue à utilização de jogadores formados no clube num contexto de, por exemplo, cinco jornadas (por exemplo ter que haver x jogadores formados no clube a actuar a cada cinco jornadas)... sei lá, são estas, poderiam ser quaisquer outras.
Fala-se muito, mas depois o modelo de base privilegia os esquemas e a manutenção do statu quo dos dirigentes e empresários que estão a matar o futebol português.
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